1.10.08

A estilização da indie-vidualidade


(produção textual capenga nos últimos meses/ano)

O cinema estadunidense vem trazendo nos últimos anos uma nova categoria de filmes independentes que, de alguma forma, tratam de temas comuns que parecem ser a hérnia da sociedade suburbana contemporânea, principalmente no tocante à classe média norte-americana. Um cinema pop, com histórias risonhas e agradáveis que, ao mesmo tempo, perturbam pelo grau de identificação possível do público e, acima de tudo, pela destruição do glorioso sonho americano.

Em Napoleon Dynamite (2004), de Jared Hess, temos a saga de um garoto nerd e sua vida, no mínimo, não-ordinária. Uma comédia melancólica, em tom nostálgico e levemente onírico, uma crônica idealizada da vida adolescente numa pequena cidade rural nos Estados Unidos.

O filme traz um ponto de vista marginal ao gênero adolescente que normalmente tem por preferência os populares do high school. Napoleon é tão nerd que nem os outros nerds se aproximam dele. Isso faz dele um solitário crônico até o dia em que o latino Pedro (quase um alienígena na pequena e conservadora Preston, estado de Idaho) chega como companheiro perfeito para ficar na retaguarda de Napoleon.

Pedro se candidata à presidência da turma e disputa com a popular Summer, uma loira que comanda o time de lideres de torcida e namora o quarterback. Napoleon toma como missão a chefia da campanha que, ao final, coroa Pedro com o bordão “votem em mim e todos os seus sonhos mais loucos se tornarão realidade”. Pedro é a reviravolta do sonho americano, o pequeno Schwarzenegger de Idaho. Nerds ou jogadores de futebol americano, meninas feias ou musas adolescentes, o que Napoleon Dynamite diz, em primeiro lugar, é que, naquele colegial, ou até naquela cidade, todos são idiotas.

O universo de Napoleon aparentemente parou no tempo. As únicas referências que temos da contemporaneidade do filme são os chats de que seu irmão mais velho Kip participa em busca de namoradas virtuais, e a apresentação das cheerleaders ao som de Backstreet Boys. Fora isso o filme, assim como a mentalidade dos personagens, parou em 1982. Os personagens se definem não por aquilo que são ou por aquilo que poderiam ser num eventual mundo real, mas por aquilo que eles gostariam de ser e não são ou ainda por aquilo que poderiam ser e não conseguiram.

A máxima dessa visão de mundo sem perspectiva é o lamentável tio de Napoleon, um homem que vive num trailer e sonha em voltar no tempo para jogar novamente a partida de futebol americano que poderia tê-lo tornado profissional. Este pensamento sem horizonte dos personagens de Napoleon Dynamite se torna uma escolha estética e alvo do filme. Se os créditos iniciais do filme trazem uma música do White Stripes, no baile todos dançam lento ao som de Forever Young e The Promisse, músicas que marcaram os anos oitenta.

E neste universo de temporalidade contraditória temos Napoleon, o mais forte dos fracos, enfrentando timidamente os valentões, cortejando a menina bonita com seu desenho deficiente e resmungando interjeições a cada frustração. Em Napoleão Dynamite não se quer a imbecilidade disfarçada pela beleza, mas sim a própria beleza da imbecilidade.

5.7.07

Uma Mulher Sob Influência (A Woman Under the Influence, 1974) de John Cassavetes.

Cassavetes queria contar histórias de uma sociedade onde a vida e o espetáculo se misturam. No inicio de sua carreira como diretor (no filme Shadows, de 1959) é possível perceber a influência do neo-realismo italiano (ligada a experiência como espectador e manifestada principalmente no uso de atores não-profissionais), da televisão (devido às experiências precedentes como ator no meio) e do novo documentário americano que buscava filmar a vida verdadeira de pessoas autênticas. Mais tarde Cassavetes conclui que seu cinema deveria ter um hibridismo entre Frank Capra e Carl Dreyer: o espetáculo e a escrita.

Em Shadows, Cassavetes se apaixona pelo poderio da câmera e do ritmo, mas volta a por os pés no chão ao se dar conta que tanto a câmera quanto o ritmo deveriam estar subjugados aos personagens e à narrativa. Assim, ele se recusa a submeter-se restritivamente à técnica.

A íntima relação de Cassavetes com os personagens remete à sua formação inicial, no Actor’s Studio, onde apreende o Método Stanislavsky. Depois de anos vagando pelo meio teatral – dirigindo, escrevendo e atuando -, Cassavetes descobre no cinema o ambiente onde poderia exercer sua vontade latente de dirigir os atores e tomar a iniciativa da mise en scene. Na sua obra cinematográfica o vestígio do método (ou o seu aperfeiçoamento do Método) é a teatralidade: hiperexpressão do corpo, do gesto, da palavra. E tal teatralidade se metaformoseia e ganha dimensão de existência. Cassavetes inscreve o teatro na vida, ou melhor, encurrala o instante em que a vida se torna teatro.

Os textos de Cassavetes são impregnados pela estrutura dramática do teatro. Uma Mulher Sob Influência, por exemplo, foi inicialmente formatado como texto teatral. Quanto à relação com o ator, temos filmes com cenas longas que respeitam a unidade de espaço e tempo, garantindo o melhor desempenho do ator. Cassavetes trabalhava com os atores de forma que o espectador criasse uma confusão entre o ator e os personagens. Ensaiava incessantemente e buscava várias qualidades em seus personagens, mimetizando a complexidade dos seres humanos. Desta forma, todos os personagens de Cassavetes possuem uma certa esquizofrenia.

Existem dois elementos recorrentes nos filmes de Cassavetes. Um é a sensação de constante improvisação, mesmo tendo consciência de que pouco é realmente improvisado. O outro elemento é a performance e o personagem como prioridade: a luz, os ângulos, os movimentos de câmera estão todos submetidos à performance e aos personagens.

Desta forma, Cassavetes é o cineasta do personagem. Seus filmes, assim como seu método de produção, estão subjugados ao personagem; seus sentimentos, suas visões, seus ideais. Cada personagem cria sua própria identidade; não é criada para ela por elementos étnicos, físicos ou sociais. Assim, os personagens se revelam através de uma constante luta contra o tempo; seu peso e suas rotinas.

Uma Mulher Sob Influência é o terceiro filme da trilogia sobre casamentos, iniciada com Faces (1968) e Minnie and Moskowitz (1971). Conta a história da família Longuetti: Nick, sua esposa Mabel e seus três filhos. Dentro da família, a loucura de cada um é permitida, “Mabel não é louca, é diferente”, insiste Nick. Até que a sociedade conservadora (sugerida pela mãe de Nick) quebre com essa “harmonia instável” e mande Mabel para um tratamento psicológico.

Mabel aparece como uma mulher desesperada, mas corajosa o suficiente para não ceder à loucura, confrontando cada faceta da vida com seu marido, Nick. Em nenhum momento a insanidade de Mabel é constatada, é uma mulher cuja inusitada percepção do mundo a leva a acreditar e insistir na validade de seus sentimentos. E assim o espectador, assim como a família Longuetti, é forçado a participar da problemática experiência de sua vida.

O estudo que Cassavetes faz da família e das relações familiares vai contra a sistematização de experiências, ele explora o caos emocional e a tolerância pela desordem social. Os filmes resistem à estática, formulam maneiras de ordenar e apresentar interações sugerindo uma nova forma de ver a existência humana.