5.7.07

Uma Mulher Sob Influência (A Woman Under the Influence, 1974) de John Cassavetes.

Cassavetes queria contar histórias de uma sociedade onde a vida e o espetáculo se misturam. No inicio de sua carreira como diretor (no filme Shadows, de 1959) é possível perceber a influência do neo-realismo italiano (ligada a experiência como espectador e manifestada principalmente no uso de atores não-profissionais), da televisão (devido às experiências precedentes como ator no meio) e do novo documentário americano que buscava filmar a vida verdadeira de pessoas autênticas. Mais tarde Cassavetes conclui que seu cinema deveria ter um hibridismo entre Frank Capra e Carl Dreyer: o espetáculo e a escrita.

Em Shadows, Cassavetes se apaixona pelo poderio da câmera e do ritmo, mas volta a por os pés no chão ao se dar conta que tanto a câmera quanto o ritmo deveriam estar subjugados aos personagens e à narrativa. Assim, ele se recusa a submeter-se restritivamente à técnica.

A íntima relação de Cassavetes com os personagens remete à sua formação inicial, no Actor’s Studio, onde apreende o Método Stanislavsky. Depois de anos vagando pelo meio teatral – dirigindo, escrevendo e atuando -, Cassavetes descobre no cinema o ambiente onde poderia exercer sua vontade latente de dirigir os atores e tomar a iniciativa da mise en scene. Na sua obra cinematográfica o vestígio do método (ou o seu aperfeiçoamento do Método) é a teatralidade: hiperexpressão do corpo, do gesto, da palavra. E tal teatralidade se metaformoseia e ganha dimensão de existência. Cassavetes inscreve o teatro na vida, ou melhor, encurrala o instante em que a vida se torna teatro.

Os textos de Cassavetes são impregnados pela estrutura dramática do teatro. Uma Mulher Sob Influência, por exemplo, foi inicialmente formatado como texto teatral. Quanto à relação com o ator, temos filmes com cenas longas que respeitam a unidade de espaço e tempo, garantindo o melhor desempenho do ator. Cassavetes trabalhava com os atores de forma que o espectador criasse uma confusão entre o ator e os personagens. Ensaiava incessantemente e buscava várias qualidades em seus personagens, mimetizando a complexidade dos seres humanos. Desta forma, todos os personagens de Cassavetes possuem uma certa esquizofrenia.

Existem dois elementos recorrentes nos filmes de Cassavetes. Um é a sensação de constante improvisação, mesmo tendo consciência de que pouco é realmente improvisado. O outro elemento é a performance e o personagem como prioridade: a luz, os ângulos, os movimentos de câmera estão todos submetidos à performance e aos personagens.

Desta forma, Cassavetes é o cineasta do personagem. Seus filmes, assim como seu método de produção, estão subjugados ao personagem; seus sentimentos, suas visões, seus ideais. Cada personagem cria sua própria identidade; não é criada para ela por elementos étnicos, físicos ou sociais. Assim, os personagens se revelam através de uma constante luta contra o tempo; seu peso e suas rotinas.

Uma Mulher Sob Influência é o terceiro filme da trilogia sobre casamentos, iniciada com Faces (1968) e Minnie and Moskowitz (1971). Conta a história da família Longuetti: Nick, sua esposa Mabel e seus três filhos. Dentro da família, a loucura de cada um é permitida, “Mabel não é louca, é diferente”, insiste Nick. Até que a sociedade conservadora (sugerida pela mãe de Nick) quebre com essa “harmonia instável” e mande Mabel para um tratamento psicológico.

Mabel aparece como uma mulher desesperada, mas corajosa o suficiente para não ceder à loucura, confrontando cada faceta da vida com seu marido, Nick. Em nenhum momento a insanidade de Mabel é constatada, é uma mulher cuja inusitada percepção do mundo a leva a acreditar e insistir na validade de seus sentimentos. E assim o espectador, assim como a família Longuetti, é forçado a participar da problemática experiência de sua vida.

O estudo que Cassavetes faz da família e das relações familiares vai contra a sistematização de experiências, ele explora o caos emocional e a tolerância pela desordem social. Os filmes resistem à estática, formulam maneiras de ordenar e apresentar interações sugerindo uma nova forma de ver a existência humana.

10.5.07

Sonho Tcheco (2005)

Sonho Tcheco é um documentário tcheco (dã) ruim. Mas não é o fato de ele ser bom ou não que me interessa no momento e sim o objeto em que ele se propõe a discutir.
Talvez nem deva chamá-lo de documentário e sim de experiência sociológica registrada (ok, ok isso é quase uma definição de documentário). Me retrato: um reality show.
Trata-se de dois estudantes de cinema que, revoltados com a febre de seu povo por hipermercados, fazem uma grande campanha publicitária que anuncia a inauguração de um novo hipermercado chamado "Sonho Tcheco". O fato é que o hipermercado se localiza num enorme terreno baldio e possui só uma fachada, ou seja, não existe e nem existirá.
Essa febre do povo Tcheco é totalmente "compreensível". Há dez anos a população enfrentava o regime soviético, o "socialismo". Com a abertura política e econômica, o país vomita essa vontade engasgada de possuir, consumir ancorado num enorme sistema de mercados de proporções enormes. Então, é natural que essa doença consumista se potencialize num país como esse. Até porque a população é ingênua e influenciável ao marketing espertinho.
O objeto de estudo dos caras é a repercussão da mídia, o poder da publicidade, a ilusão do menor preço trabalhando em favor da alienação da massa e do consumismo.
Muito interessante a participação da equipe de publicitários que eles contratam e da forma como eles se propõe a agir. O cara fala "na publicidade a gente não mente", cínico, no mínimo. Todo o discursso da propaganda do "novo hipermercado" é na forma de antíteses e psicologia inversa: "Não vá", "Não gaste" o que é no mínimo engraçado pois quando aquele povo revoltado quer matar os caras na inauguração eles usam do argumento "ei, eu avisei.."

22.4.07

The Apartment (1960)

A verdade é que já não existe mais distanciamento algum entre eu e esse filme. Assim como a maioria dos outros os quais eu me proponho a escrever. Tá nas entranhas. Eu simplesmente adoro e entendo. Mas vamos lá...
The Apartment poderia ser uma comédia que reafirma o bom e velho "nice guys finish last"; um cara legal que sempre sai perdendo, lembrando os velhos tempo de Slapstick Comedy, cujo representante máximo da facção "cara legais que se fodem" é Harry Langdon (Tramp, Tramp, Tramp; The Strong Man) e Buster Keaton por muitas vezes; o esteriótipo do rapaz franzino que nunca consegue a garota por haver sempre um fortão galante por perto.
O que acontece em Se meu apartamento falasse (como foi traduzido no Brasil) é que o "esteriótipo" é modernizado e a garota passa a ser não do fortão e sim do poderoso.
A fórmula antiga "na verdade ela sempre quis o cara legal" permanece mas é mais ambigua.
- "Why can't I ever fall in love with somebody like you?," pergunta Fran (Shirley McLaine), a ascessorista-amante do diretor da empresa ao bocó C.C Baxter (Jack Lemmon).
Mas de bonzinho Baxter não tem nada. Ele se faz de bobão, sedendo seu apartamento aos executivos de sua empresa com a promessa de subir na carreira e pesquisa nos arquivos da empresa tudo sobre sua amada. Ele ganhou a fama de canastrão entre seus vizinhos, e, de certa forma, gostaria que isso fosse verdade.
C.C Baxter é o alter-ego de Billy Wilder, que sempre adiciona um personagem em crise e corrompido.
Fran tem uma papel muito interessante; ela é ascessorista do elevador da empresa e tem um relacionamento adultero com o presidente. A empresa, por sua vez, é uma companhia de seguros. Trata-se de uma representação brilhante da questão que o filme aborda, na minha opinião, que são os novos valores e a nova moral do pós-guerra: Quanto controle uma pessoa tem da própria vida?


...

17.4.07

The Match Factory Girl (1990)

No inicio temos um longo plano da fábrica e da linha de produção até chegar a Iris, a garota. The Match Factory Girl é um filme sobre uma existência vazia, uma existência que se resume ao trabalho na fábrica de fósforos, livros românticos bobos e eventuais bailes frustrados.
Após essa longa existência patética, Iris compra um vestido, vai à uma discoteca mais descolada que os bailes que costumava ir, conhece um cara e engravida. Abandonada por todos, ela decide se vingar e deixa escapar seu único e mais sorrateiro sorriso ao comprar veneno de rato.

Me impressionou muito a vontade do diretor, Aki Kaurismaki, em dizer até onde uma pessoa sem horizonte pode ir. Ele está longe de ser otimista ou ter uma visão romantizada e longe de dar qualquer perspectiva a ela. Mas transforma a vida de Iris de um drama silencioso e frio à uma comédia de humor negro.

10.3.07

Maria Antonieta (2006)

Costumo me render muito facilmente a filmes com uma boa direção de arte. E, realmente, Maria Antonieta é um filme que agrada os olhos; excelentes figurinos, maquiagens e a sorte da autorização do uso dos cenários onde as coisas, de fato, ocorreram. Desleal.

Sofia foi malandra: pegou um ícone absoluto francês e criou um filme sob um ponto de vista estadunidense.
E mais; fez um filme absolutamente contraditório e ousado.
Ao contrário do comum nos filmes de época, Maria Antonieta é ambicioso através do estilo recorrente de Sofia Coppola: vem com planos rápidos, abertos, ágeis e precisos além de um uso ostensivo de elipses temporais. Uma brincadeira com o anacronismo.

Porém, ainda assim, o filme deixa a desejar por algum motivo.
Talvez seja a trilha sonora; uma mistura do moderno com o coerente à época totalmente deslocada e forçada. (não critico a idéia, mas sim o resultado)
Ou talvez a tentativa de Sofia em transformar Maria Antonieta num personagem mais humano tenha sido mal-sucedida. A humanidade da rainha falha no final do filme, quando é lembrada a revolução.
Aquela história não é humana, aquele universo não é humano, Maria Antonieta não era humana.
E Sofia, mesmo quando tenta não julgar os personagens, passa a mão na cabeça deles. E nos poupa. Mas ainda assim não é um filme ruim.
Como eu disse: ele agrada os olhos.

Ok, revi o filme (desta vez na grande tela) e quero acrescentar algumas coisas:
A escolha de Sofia Coppola pelo ícone "Maria Antonieta" foi, no minimo, autobiografica. Mas não é isso que eu quero dizer.
Antes eu achava que faltava algo ao filme. Já não penso mais assim... Acho que o filme é, sim, fechado. A proposta de Sofia, aparentemente é um filme adolecente, sim. Ela quer abrir os olhos desse povo desvairado e fútil. É como e Maria Antonieta fosse um reflexo da juventude de hoje, não sei explicar.



5.3.07

Filmes de Fevereiro

mês de muito trabalho e poucos filmes:


A Bela da Tarde (L. Bunuel) - 50/50 *
Domicilio Conjugal (F. Truffaut) - 45/50 *
Psicose (A. Hitchcock) - 50/50
O Beijo Amargo (Samuel Fuller) - 50/50 *
A lula e a Baleia (
Noah Baumbach) - 40/50 *
Onde fica a casa do meu amigo? (A. Kiarostami) - 50/50 *
Babel (
Alejandro González-Iñárritu) - 40/50
Half Nelson (Ryan Fleck) - 42/50
Shortbus (John Cameron Mitchell) - 35/50

1.2.07

Filmes de Janeiro

O Poderoso Chefão (Francis F. Coppola) - 50/50
O Poderoso Chefão II (Francis F. Coppola) - 47/50
Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão (Woody Allen) - 30/50
Casamento ou Luxo (Charles Chaplin) - 42/50
O Imigrante (Charles Chaplin) - 30/50
Piratas do Caribe II () - 19/50
Disque M para Matar (Alfred Hitchcock) - 50/50
Marnie (Alfred Hitchcock) - 45/50
Manhatan (woody Allen) - 50/50 *
Zelig (Woody Allen) - 49/50 *
Apertem os Cintos... O piloto sumiu - 35/50
Rosa Púrpura do Cairo (Woody Allen) - 40/50
Sympathy for the Devil (Jean-Luc Godard) - 45/50
Comment Ça Va (Jean-Luc Godard) - 38/50
Une Histoire D'eau - (François Truffaut e Jean-Luc Godard) - 4250
Bonnie and Clyde - 50/50
Terra dos Mortos (George Romero) - 39/50 *
Diamante de Sangue - 28/50
A lei do desejo (Pedro Almodovar) - 37/50
Amor em 5 tempos - 25/50
Um estranho no ninho - 50/50
Platoon (Oliver Stone) - 30/50
O libertino - 31/50
Amigas de Colégio - 40/50
Intriga Internacional (Alfred Hitchcock) - 40/50
Napoleon Dynamite - 35/50
A Dama da Agua - 20/50
Pavor nos Bastidores (Alfred Hitchcock) - 30/50


Fiquei com preguiça de procurar o nome de todos os diretores... depois eu atualizo.

14.1.07

Harold Lloyd II


ok, ok... o texto anterior do Lloyd tá lá. Mas ele é meio babaca, tendencionista e bem pouco embasado. Acho que esse faz mais jus ao homem:


No inicio de sua carreira, Harold Lloyd era só mais uma imitação de Chaplin, mas com roupas apertadas. Com o tempo, acabou trocando o bigodinho por um chapéu de palha e um óculos tartaruga, com certa elegância; “pouco inteligente mas afortunado” poderia ser o lema do personagem. Representava o americano médio confrontado pela freneticidade da urbanização: arranha-céus, negócios, médicos charlatões. Em Safety Last, “o garoto” (como é chamado no filme) que, pelo desenrolar da trama, começa a escalar um edifício pelo lado de fora e não tem como descer, nem consegue penetrar por uma janela - precisa continuar a subir e, numa dessas, para não cair, agarra-se ao ponteiro de minutos do relógio na torre do prédio Uma personalidade baseada na ausência de personalidade.
Seu personagem - o jovem franzino, de óculos, chapéu de palha e terno, não necessariamente tímido, mas sempre desastrado - combinava uma certa densidade psicológica, tipo Chaplin, com uma inacreditável destreza física, tipo Keaton (em minha opinião, maior ainda que a de Buster). Só em 1919 descobriu o fator decisivo para seu personagem: os óculos. Esta foi sua originalidade: criou um personagem absolutamente comum e apagado (sempre chamado Harold - no Brasil, Haroldo), a quem aconteciam as situações mais incomuns e que o faziam, sem querer, transformar-se em um super-homem. Dos 58 minutos de For Heaven's Sake (1926), 30 são um corre-corre desenfreado, com Harold atraindo para si todos os bandidos e policiais da cidade a fim de levá-los para a sede de uma missão tipo Exército da Salvação.
Harold Lloyd representa, de certa forma um microcosmo do que a comédia manifesta: o reconhecimento da platéia no ridículo, a luta com o objeto.


Altamente Recomendado:

Safety Last (O Homem Mosca), de Fred C. Newmeyer e Sam Taylor, 1923.


Max Linder


Max Linder pode ser considerado o pai da primeira geração de comediantes do cinema norte-americano, especialmente de Chaplin, que o estudou profundamente. Sua linguagem, ainda incipiente, era a câmera parada acompanhando o que acontecia no quadro, o chamado “Teatro filmado”. Uso de poucos cenários, quando não um único. Sua comicidade não se baseava em oscilação de extremos e no buslesco, mas sim pelo movimento e uma fina observação psicológica na criação do personagem.
Depois de desenvolver e estudar diferentes personagens, Linder encontrou seu “alter-ego cinematográfico” no personagem Max, um homem urbano, de chapéu e terno elegantes que constantemente se dava mal por ser um típico bon vivant e correr atrás de belas garotas. Com a criação de um personagem fixo Max Linder se tornou uma figura cômica, ou melhor, a primeira figura reconhecivel ao público da história do cinema.

Altamente Recomendado:

Max et la doctoresse, Max Linder, 1909.

Max prend un bain, Max Linder, 1910.

Troubles Of A Grass Widower, Max Linder, 1908.

Sympathy for the Devil (1968)


Eu diria que é um filme sobre construção. Construção de uma musica, construção de uma obra, construção de um movimento, construção de uma revolução.
Godard revoluciona e quer que o mundo o acompanhanhe; faz o chamado documentando a gravação da musica homonima ao titulo do filme.
Percebe-se, a partir desse documento, que uma musica, uma obra depende de vários segmentos, depende de uma exaustiva repetição e de coisas aparentemente desconexas.





...

13.1.07

Disque M para Matar (1954)


Duas coisas me chamaram a atenção neste filme:

1 - O uso que Hitchcock faz de espaços fechados, enclausurados. O confinamento não-claustrofobico. O filme todo, praticamente, se passa dentro de um unico comodo de um apartamento. É possivel estabelecer esse confinamento da narrativa como uma caracteristica bem marcante ao longo da obra de Hitchcock: Festim Diabólico seria o exemplo máximo pra isso.

2 - O uso das cores no figurino do personagem de Grace Kelly. As tonalidades escolhidas para climatizar o filme são bem mornas: tons pastéis, em geral. Exceto quando se trata do personagem de Grace Kelly, uma mulher infiel ao marido; quando está com o marido usa roupas de tons claros (barncos, cremes) e quando está com o amantes usa cores quentes (vermelhos, marrons).

Essas duas coisas me interessanram por serem narrativa puramente dialética.